A difícil missão de ser jornalista

 
 
  A escolha por um curso superior é sempre um momento de muitas dúvidas, algumas pessoas têm sonhos e planos definidos quanto a uma carreira logo cedo, outras passam por um período de decisão, parte faz outras coisas fora da vida acadêmica e muitos vão tentando cursos até se encaixar em algo que não imaginam tem vocação. Algumas áreas são motivos para questionamentos, jornalismo sem dúvidas é uma delas. Ciências Humanas e Comunicação Social são áreas questionadas quando fazem parte da escolha de um jovem, no caso específico do jornalismo algumas perguntas são recorrentes: vai trabalhar na Globo? Conseguir emprego em uma emissora é complicado, por quê não faz engenharia? Jornalismo dá dinheiro? Por quê você estuda tanto se não precisa de diploma? Todo estudante de jornalismo já ouviu ao menos uma destas perguntas em sua jornada de estudos.
  As novas mídias ampliam o mercado da informação, ao mesmo tempo que permite que qualquer um faça sua história parecer real, são os conhecidos formadores de opinião, nem sempre trazem um embasamento teórico, não costumam em sua maioria checar suas fontes, mas produzem em muitos casos conteúdos que não são um recorte da realidade, mas uma distorção ou a invenção de um fato. A dicotomia política que tem sido a palavra de ordem no cenário nacional é um prato cheio para o surgimento de notícias falsas, manchetes sensacionalistas, textos opinativos apoiados no fanatismo e uma multidão de pessoas sedentas por demonstrar que sua ideologia é correta, tudo isso para colocar as pessoas em sua bolha de informações que alimentam o ego, deixando assim aquela sensação de que o vazio intelectual é um campo fértil de ideais que a grande mídia tenta calar.
  É complicado falar nas redes sociais como surge uma notícia, o brasileiro é especialista em todos os assuntos possíveis, mesmo quando são distantes de sua realidade, afinal somos um povo que não perde a oportunidade de dar um pitaco, saber como funciona tudo e sobre todas as teorias. O jornalismo tem o compromisso com em passar a informação de como os fatos acontecem, não é uma representação fiel da realidade, mas a partir de recortes, histórias, relatos, apuração, fontes oficiais e observação tenta reconstruir o ocorrido, passando ao interlocutor um compilado de materiais checados, muitas vezes que vai contra a opinião do receptor. O jornalismo não é isento, o jornalismo é parcial, imparcialidade jamais virá através de pessoas com sentimentos, formação e mesmo instrução cultural distintas, o jornalista deve contar a história da forma que ela ocorreu, mas suas ferramentas não são padronizadas, notícias por mais que possam parecer não trazem opinião, mas demonstram de forma sútil posicionamentos, ao  menos deveria ser assim.
  Dia 7 de abril, dia do jornalista, data dedicada aos profissionais que inúmeras vezes deixam sua vida pessoal de lado para cumprir pautas diárias, semanais, mensais e muitas vezes desenvolver pesquisas extensas para aquela reportagem investigativa que choca a sociedade, mas para muitos, é o mero batedor de releases ou aquele que diz que o avião arremeteu e não o piloto que realizou a manobra. Releases são fontes de informação, o erro de muitos profissionais é publicarem o conteúdo na integra e não se colocarem na matéria, é como assinar algo que não foi feito por ele, muitas vezes replicados em diversos veículos. Quando um jornalista erra ao dizer que o avião arremeteu, fica claro que ele não é um profissional da aviação e muitas vezes profissionais da área e assessorias de imprensa devem simplificar o que é relevante para o jornalista repassar ao grande público, se o avião arremeteu, certamente é porque o comandante (se chamar de piloto podemos gerar uma revolta), realizou tal manobra, mas os especialistas de plantão estão lá para dar o pitaco, pergunto a eles o que é um lead, critérios de noticiabilidade e checagem de fontes, aposto que a maioria reproduzirá o vácuo que habita a sua mente diante a tais termos.
  Sobre o diploma para jornalista não ser necessário, é um sério equivoco por parte de nossos políticos, quem se consultaria com um médico sem diploma, buscaria defesa com um advogado autodidata ou confiaria em uma obra assinada por um pseudo-engenheiro? A resposta é óbvia, mas por quê o jornalismo pode ser exercido teoricamente por qualquer um? O curso de jornalismo é complexo e denso como a profissão, aprende-se um pouco de tudo, muita teoria com muita prática, é a transformação pessoal, o estudante de jornalismo aprende a usar mais da sensibilidade e da observação, afinal, notícias e pautas podem surgir em qualquer lugar.
  Utilizando uma frase recorrente nos últimos dias nas redes sociais, jornalismo dá dinheiro? A resposta é enfática, se você trabalhar, se aperfeiçoar, tiver um pouco de empreendedorismo e não tem medo de plantões ou jornadas de trabalho estressantes, é uma forma de ganhar a vida, dinheiro ganho na vida só dos pais ou na sorte de ganhar em algum sorteio, o resto é necessário correr atrás. Jornalismo desde a graduação não é para os fracos, é uma profissão de cegos apaixonados, de quem apanha de todos os lados mas está ali disposto a fazer a próxima cobertura, ser jornalista é dia ser golpista, no outro ser petralha e "mudar" de lado conforme as informações obtidas, afinal no jornalismo não existe achismos e não deveria haver fanatismos, existem fontes, apuração e informações oficiais, aquelas dadas por governos e chefes de Estado, jornalismo não é massagear o ego, é conviver com a torpe realidade.
  

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